DA LIMA DA PÉRSIA A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE DA VIDA

DA LIMA DA PÉRSIA A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE DA VIDA

DA LIMA DA PÉRSIA A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE DA VIDA

Essa semana, junto a minha mãe, resgatei momentos especiais vividos com ela quando sentávamos embaixo da limeira-da-pérsia e apreciávamos as mãos alvas e delicadas dela ao descascar as frutas para mim, meus irmãos e primos. Crianças, não sabíamos ainda definir seu gosto exato, tinha um sabor menos ácido, no finalzinho um gostinho amargo, por isso não era apreciada por todos. De tamanho entre uma laranja e um limão, casca fininha e de cor amarelo pálido, minha mãe nos alertava que fazia muito bem para a saúde e ao começar a descascá-la, podíamos sentir o cheiro agradável que emanava, um cheiro que para mim, representava a natureza, o cuidado, o carinho, aconchego, enfim, um momento para conversas engraçadas, para ouvir histórias, e para degustar a respectiva fruta cítrica de gostinho amargo.

Esta lembrança veio, porque ela mencionou que fazia tempo que não chupava lima da pérsia, foi um link para que eu resgatasse essa memória, e juntas revivemos momentos gratificantes na fazenda de meu avô. Após esse resgate ela falou – “Nossa, como o tempo passou, já estou com 87 anos, é bastante né? Toda manhã eu acordo e penso: acordei, estou viva”. Aí eu perguntei: “por que a senhora pensa isso?”. Ela no auge de sua sabedoria respondeu: “a única certeza que temos é a chegada da morte, só não sabemos exatamente como e quando virá.  Mas com o passar dos dias, a morte fica mais próxima, então quando eu acordo, fico feliz que ainda estou viva”.

Prosseguindo nosso diálogo, eu perguntei: “Mãe, a senhora tem medo da morte?” Ao que ela respondeu: “não, não tenho medo da morte, porque Deus sabe a hora de todos nós. Todos iremos morrer um dia, mas eu gostaria de morrer como um passarinho”. Surpresa com a resposta de minha mãe, continuei com minhas indagações: “Como é morrer como um passarinho mãe?”. Resposta: “Ué, que pergunta Maristela, você nunca viu um passarinho morrer? Ele está voando e de repente ele morre”.

Uau, “ele está voando e de repente ele morre”. Para mim foi o máximo, estamos vivendo e de repente morremos, mas no morrer como um passarinho está implícita a morte repentina, sem sofrimento, independente de como tenha sido a nossa vida, feliz, triste, sofrida, solitária, com muita gente.

De acordo com a médica Ana Claudia, em seu livro: A morte é um dia que vale a pena viver, enquanto não olharmos para a morte, não conseguiremos ter uma vida plena, e também nos esclarece que o verdadeiro herói é aquele que reconhece a morte como sua maior sabedoria, e não aquele que quer fugir do encontro com a morte.  Reconhecendo a nossa finitude, podemos ressignificar nossas vidas, ver a vida de outra forma, a passagem aqui na Terra é breve, precisa de valor, sentido e significado, pois “as pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido.”

Assim como a lima da pérsia tem no finalzinho um gostinho amargo, por isso não é apreciada por todos, conversar sobre e reconhecer a morte, também não é apreciado por todos e para algumas pessoas também tem esse gostinho amargo, pois a morte vem acompanhada do medo, emoções negativas por se tratar de algo desconhecido, configurando-se como parte do destino humano.  Mas uma vez a Dra. Ana Claudia nos alerta: “quem diz ter medo da morte deveria ter um medo mais responsável (…) o medo não salva ninguém do fim, a coragem também não. Mas o respeito pela morte traz equilíbrio e harmonia nas escolhas. Não traz imortalidade física, mas possibilita a experiência consciente de uma vida que vale a pena ser vivida.”

Pois bem, um diálogo e um livro recheado de muitas reflexões, finalizo com a questão do tempo, trazido pela Dra. Ana Cláudia, “o que separa o nascimento da morte é o TEMPO”.

Caro leitores, dentro desse tempo, qual o sentido que estamos dando para as nossas vidas?

Até a próxima.

 

Referências Bibliográficas:

ARANTES, Ana Claudia Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de      Janeiro: Sextante, 2019.

 

Maristela Negri Marrano –

Pós-graduada em Neurociências aplicadas a Longevidade – UFRJ

Mestre em Educação Física – UNIMEP

Sócia-Diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba – CLAP

maristela@centroclap.com.br

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