O QUE NÓS MULHERES QUEREMOS? CONTINUAR NOSSA JORNADA NAS PROFUNDIDADES TRANQUILAS?

O QUE NÓS MULHERES QUEREMOS? CONTINUAR NOSSA JORNADA NAS PROFUNDIDADES TRANQUILAS?

Cheguei aos 50, filhos estudando fora, marido trabalhando em outra cidade, de repente me vi só! Senti um vazio, um silêncio! Num primeiro momento não consegui identificar se era bom ou ruim, ou melhor, talvez não precise ser isto ou aquilo! Apenas lembrei-me de Johannes Scotus Erigena ao citar o desabafo de uma bailarina quando diz: certa vez quando caí num momento crítico de um espetáculo, não tive tempo, embora humilhada e chocada, para um comportamento de auto piedade. A única pergunta relevante a fazer é: o que vem em seguida? E assim, seguir em frente!!

Pois bem, a vida continua, como um rio que flui, resgato aqui Manuel Bandeira, para ilustrar nossa reflexão:

Ser como o rio que flui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

 

            Continuar nossa jornada, “nas profundidades tranquilas”, sem medos, altivas, com sonhos, desejos, anseios. Afinal, o que nós mulheres queremos? Somos singulares, cada qual com sua própria história de vida, suas experiências, sua realidade, portanto, cada qual buscando ressignificar sua vida, da melhor maneira possível. Diante essa singularidade, o que queremos daqui à 1 hora, daqui a 5 minutos, o que queremos agora? De imediato podemos responder ser feliz. Hum, e o que será que nos faz felizes?

            Miriam Goldemberg, antropóloga, Professora da UFRJ e pesquisadora sobre gênero e corpo, deu a seguinte resposta a Revista Época ao ser indagada sobre quando é que a mulher de 50 anos é mais feliz?

  • Quando a mulher tem um projeto próprio que não começa aos 50, mas muito antes.
  • Quando percebe o envelhecimento como uma continuidade desse projeto e não como uma ruptura ou como um momento de mudanças.
  • Quando não aceita as classificações e os estigmas sociais e faz da própria vida uma permanente invenção.
  • Quando gosta do seu corpo com suas imperfeições e mudanças. Quando não tem preconceitos ou modelos muito rígidos de ser homem e ser mulher, ser velho e ser jovem.

            Diante essas reflexões, entendo neste momento que o autoconhecimento e a percepção sadia de que o tempo está passando, o corpo se transformando, é fundamental para se viver bem e ser feliz.  Fica claro que o caminhar dentro do processo do viver, e consequentemente do envelhecer, depende de nossa habilidade em ter conhecimento de si mesma, de estar pré-disposta a ir em direção ao outro e ao mundo, consciente de si, consciente de seus desejos, abrir-se para o mundo, com sonhos e projetos, na perspectiva do querer, do seguir adiante.

            Acrescento aqui as reflexões da pesquisadora Silene Okuma (2002, p.33), quando nos alerta que “as pessoas não tem corpo bonito, ou feio, gordo ou magro, hábil ou inábil, capaz ou incapaz, ativo ou passivo, doente ou saudável […]. As pessoas são o próprio corpo que expressa uma forma gradativamente construída para lidar com as exigências das experiências de vida. Essas formas têm significados, pois são as experiências da existência configurada no corpo”.

            Enfim, empoderadas da consciência de si, da passagem do tempo, das transformações corporais, transformações essas que representam a verdade da existência, do ninho vazio, tendo em mente que o que marca o ser humano são as relações dialéticas entre o seu corpo, sua alma e o mundo no qual se manifestam, a partir daí, ser criativas e refazer suas crenças, reescrevendo sua história na temporalidade, transformando o olhar, para ver o belo e aceitar as transformações que adquirimos com o tempo, aceitar as diferenças, aceitar que os filhos criam asas, aceitando que tudo faz parte da vida.

            Pois bem, como nos diz Gonzaguinha “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz”. Vamos prosseguir, seguir viagem nesta vida, pois só assim descobriremos e compreenderemos que viver e envelhecer é apenas uma maneira de adquirir beleza, pois como como nos revela Paulo Monteiro (2004, p. 8): “a beleza está em nós porque somos seres com potencialidade irrestrita, somos instáveis e envelhecemos. Se não envelhecêssemos, não teríamos  nenhuma possibilidade. Como posso acreditar que o dia de amanhã será melhor do que o de hoje? Porque envelheço. Envelhecer é mudar, é ir além da forma de nós mesmos, buscando descobrir um melhor caminho de ser e de viver. Quando acreditamos nisso um novo horizonte se abre ao nossos olhos”.

 

Maristela Negri Marrano

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

GOLDEMBERG, Miriam. Revista Época – www.revistaepoca.globo.com.br. Acesso, 17/08/2016.

OKUMA, Silene. O Idoso e a Atividade Física. Campinas, SP: Papirus, 2002.

MONTEIRO, Paulo. A Beleza do Envelhecer: caminhos possíveis. Revista Faculdade Paulista de Serviço Social, ano VI, n. 31, pp 6 -9, São Paulo, 2004.

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